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segunda-feira, 1 de março de 2010

Gette, a minha avó

EXPOSIÇÃO DESENHO - GETTE, Revelação aos 90 anos de idade!

Para ver no Porto até dia 15 de Março, no Palacete dos Viscondes de Balsemão, Praça Carlos Alberto.

Revelação aos 90 anos de idade - Texto de Euico Gonçalves
Gette é um caso notável de persistência e amor à vida que, aos 90 anos de idade, consegue superar a doença, através da prática do desenho e da pintura, a que se dedica com esmero e inconfundível estilo pessoal.
Além da autenticidade expressiva, surpreende a evolução criativa da sua linguagem gráfica e cromática, que merece ser observada com especial atenção.

Face a uma selecção de cerca de 200 desenhos e pinturas, realizados com grande intensidade nos últimos meses, esta exposição mostra apenas algumas dezenas, por limitações de espaço.

Em Março de 2009, a autora constrói as suas composições espaciais com luz e sombra, em sucessivos desenhos a lápis negro sobre papel branco, explorando diversas gamas de cinzentos, claros e escuros, evocando, por vezes, Cézanne, que declarou: O pintor que não é sensível ao cinzento, não é pintor. Esta série de desenhos cezanneanos reportam-se ao espaço atmosférico da paisagem, digamos neo-impressionista, onde a luz é o elemento primordial.



Posteriormente, em Abril de 2009, o seu construtivismo espacial torna-se mais duro, ou menos solto, ao acentuar os contornos dos elementos figurativos e abstractos, esquemáticos e/ou geométricos.

Noutra série mais vasta, a composição adquire qualidade ornamental na junção de repetitivos elementos florais que, todavia, se inter-relacionam com surpreendente variedade no modo como se justapõem e articulam em ritmos circulares e espiralados. Série labiríntica, a preto e branco, traçada a lápis negro sobre papel branco, num ágil estilo gráfico, que associa os múltiplos contornos de imaginárias florestas a animais que aí se ocultam e desocultam., como pássaros, serpentes, gatos, tartarugas e caracóis. Série longa, que se desenvolve até Setembro, Outubro e Novembro de 2009.

A recriação deste estilo pessoal leva a artista a experimentar outros suportes, ao desenhar a lápis branco sobre cartolina preta. Série negra, mais linear, mas não menos complexa e labiríntica, no traçado de sugestivas e meticulosas teias de aranha, onde a serpente reaparece.

Após a austera disciplina do preto e branco, a autora recupera o seu admirável sentido cromático que, curiosamente, torna mais lírica e sensorial a sua composição ornamental, onde a cor vibra por contraste de múltiplos e variados cambiantes. Digamos que estas suas composições multicolores e festivas exaltam o fascínio e o mistério da noite (na série nocturna sobre cartolina negra), e a alegria de viver (na série diurna sobre papel branco). Se na série diurna lembra Matisse e Bonnard, no modo como desenha directamente com a cor e é sensível às nuances das diversas tonalidades, na série nocturna é Kandinsky que se vislumbra nesta Poética do Maravilhoso.

A pintura faz renascer o que em nós existe de melhor. Para Gette , o desenho e a pintura são o seu meio expressivo de exteriorizar sensações formais e cromáticas, ao assumir o espírito fabuloso da sua linguagem, construída com sensibilidade. As suas composições feéricas não abdicam da fantasia, que trata com especial requinte. Daí, o à-vontade com que abeira a figuração livre, o ornato e a abstracção deliberada, habituada a conjugar a noite e o dia, a realidade e o sonho, a doença e a saúde.

Nesta perspectiva, a Arte é para ela uma verdadeira terapia, que a ajuda a vencer a doença e a reencontrar a alegria de viver.

Em momentos difíceis de extrema fragilidade física, chegou a deixar de desenhar temporariamente, mas depressa, felizmente, recuperou o ânimo e a energia, que lhe permitem voltar a fazer o que mais gosta.

“A Arte é a boa saúde!”

Eurico Gonçalves
Dezembro, 2009

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